25 de Abril

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quinta-feira, 31 de julho de 2008

O REMORSO MAL EMENDADO

Ouvi, atentamente, as declarações de João Cravinho sobre a corrupção infrene em Portugal, complementadas pelas gravíssimas acusações à legislação, que ele entende pejada de “factos anómalos”. Tenho consideração pelo ex-deputado do PS, que nunca fora homem de tagarelices. A sua história está associada à da minha geração, levemente ingénua e um pouco tonta, iluminada pela contemplação de uma finalidade, que entendia o fascismo como monstruosa simulação e o futuro como a correcção de todos os males.
Extraíamos, da nossa consciência, a fidelidade a um projecto político que recuperasse as verdades entrevistas nas nossas leituras comuns. Éramos novos e não nos desconcertávamos com os reveses que a História, deusa cega, nos infligia. Entre os poucos livros honestos, até hoje publicados, acerca dessa geração, avulta um: Os Anos Decisivos - Portugal 1962-1985: Um Testemunho, de César Oliveira, Editorial Presença, 1993. Nele se poderá aferir das traições aos testamentos legados, dos poucos que permaneceram no cumprimento de uma certa condição e dos muitos que desistiram e rodam em outros carris.
A lista dos nomes que personificavam um sonho de reabilitação colectiva e se opunham à violência da “ordem” salazarista é o dramático retrato de muitos que foram e deixaram de o ser. Recordei esta fraternidade altiva depois das declarações de Cravinho, personagem do livro de César Oliveira. E reconheço que pecam por tardias e inexistem como significado, porque o carácter do documento era já conhecido. Ele aceitou as regras do jogo, cedeu à pressão e acedeu a um cargo (indicado pelo PS) na direcção do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (???), mora em Londres e libertou-se do ofício de ser português em Portugal. Foi o que foi: hoje, é o que é. Este fardo não é meu. Cravinho pode aludir à ausência de independência dos outros, quando a sua não será tão virtuosa quanto seria desejável? É claro que nunca proclamou ser um homem justo; todavia, sempre o aparentou: eis porque a ida para Londres configura o abandono sem perdão de um combate e uma forma fácil de governar a vida. Vou a Camus: “Pode, realmente, pregar a justiça aquele que não consegue sequer fazê-la reinar na sua vida?”
Fica, desta história, a sensação de um remorso mal emendado. Há uma patética procura do equilíbrio perdido e uma fuga ao real, ilustradas por alguém que precisa de se justificar. Escrevo estas palavras isento de qualquer exaltação inútil. Mas a natureza dos factos recentes leva-me a considerar que os sonhos de Abril têm resultado na demonstração revoltante da cupidez de muitos daqueles que, afinal, estavam a investir no futuro pessoal.
Quanto à resposta de Alberto Martins, não passa de uma desgraça sentada em cómoda poltrona.

Baptista-Bastos escritor e jornalista in D.N.


A Queda

O anjo caido

Corrupção

«João Cravinho lançou, duras críticas às medidas tomadas contra a corrupção, como resposta às suas propostas, que o PS rejeitou, e alertou que a grande corrupção e o crime estão a aumentar. O ex-ministro das Obras públicas de António Guterres, reconhece que o Simplex é muito positivo no combate à pequena corrupção, mas, lamenta, «na grande corrupção de Estado, toda a gente tem a sensação que estamos numa situação muito complicada e em crescendo». E porquê? Cravinho explica: «Porque a grande corrupção considera-se impune e age em conformidade e atinge áreas de funcionamento do Estado».
No entanto, apesar do retrato que faz do campo de batalha com a grande corrupção a ganhar terreno, ressalva que fica a luta travada: “é uma derrota como um soldado que (se combateu) não teve a culpa”.
O autor de um pacote legislativo sobre corrupção, (que foi chumbado pelo PS e PSD) deixou no Parlamento para em Londres assumir a direcção do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento»

João Cravinho é um homem derrotado pelo sistema, um “soldado” que perdeu a batalha, não por ter sido atingido com uma bala mas neste caso por uma bela cadeira num Banco em Londres. Seja como for não deixou de colocar o dedo na ferida e de dizer em voz alta aquilo que por cá muitos parecem ter medo ou vontade de dizer até em surdina. Vivemos no reino da corrupção, da corrupção feita ao mais alto nível, à corrupção do próprio poder legislativo que tudo faz para criar as condições para políticos, ricos e poderosos. Vivem na impunidade de leis que mais parecem queijos suíços, tantos são os buracos por onde podem fugir. Filhos da puta que desgraçam este país e nos condenam a sermos os mais pobres da Europa, que usam os recursos do país em proveito próprio. Faz bem o Cravinho em denunciar esta situação, mas melhor seria que não se tivesse vendido, ficado em Portugal e tivesse colocado nomes próprios (e de família) naqueles que usam a corrupção como forma de vida.

Contribuição para o Echelon: Kwajalein, LHI